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segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."
(Manoel de Barros)
AS COISAS QUE O AFETO ENSINA...
Este é o nome de um artigo que li há tempos, de um educador chamado Marcelo Bueno. Gosto muito de ir e vir, de transitar textos de acordo com o meu estado de espírito. Inquietar e me inspirar com a diversidade é o que procuro fazer na educação.
Este sentimento brotou no sábado passado quando guiei uma assessoria para um grupo de professores de uma escola que trabalha com a primeira infância.
Terminei o trabalho com mais uma confirmação de que Afeto é afetar, independente da idade do aluno.
Compartilho o que autor descreveu em seu blog “Afeto é afetar. É o compromisso de transformar o outro”. O coletivo a transformar a sua vida? Somos marcados por mapas afetivos para sempre! Escuto muitas pessoas dizendo que escolheram as suas profissões por conta de um professor específico. Por quê? Pela forma como esse professor afetou você pelo conhecimento. O afeto está na preparação da aula. Nas escolhas do professor. Na voz, no toque, nos pequenos gestos. No silêncio, na forma como esse avalia. Aprendi que de nada vale estar em uma superescola, com um supermaterial, num superespaço, numa superlinha pedagógica se não há seres capazes de afetar e dispostos a serem afetados pelos outros! Afeto é o que fica. Esse afeto que percebe que o educar se faz nas miudezas. É ele que vai além de toda a tecnologia pedagógica atual”.

FONTE: marcelocunhabueno.blogspot.com
Fica a pergunta: Será que a educação a distância afeta? Não estou me referindo apenas a virtual, nem desdenhando da possibilidade que a evolução tecnológica possibilitou para muitas pessoas. Estou falando daquela de corpo presente e alma distante, de professores virtuais, embora presenciais. Acredito naquele gesto, no timbre da voz, no espaço cuidadosamente preparado, na linguagem corporal, no LER criança com razão e coração.



 

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Diálogo com a natureza

A inspiração para este texto veio dessas imagens dos bonecos do Muriquinhos tão confortavelmente entrosados com a natureza. O esqueleto e vontade inicial do texto foram da Rosana (que parece que começou 2014 com uma coceira escritora nos dedos...). Mas como ela nos deixou muricar em cima do texto dela... acabou virando um texto coletivo.
Por incrível que pareça não é um texto sobre o brincar, mas é sobre um assunto que nos tem feito arregaçar as mangas, estudar e refletir.
O reaproveitamento de materiais tem acompanhado a história do Muriquinhos. No começo, a gente fazia brinquedos usando “sucata” e dizia que estava “reciclando”. Com o tempo, descobrimos que esses termos não eram os melhores para caracterizar o que fazíamos e que várias dessas palavras da “moda” eram utilizadas equivocadamente.
Sustentabilidade... era preciso mergulhar bem mais profundamente para começar a alcançar o real sentido desse conceito. Mais do que ler e colecionar definições, era preciso vivenciar o conceito e interiorizar práticas.
E, além de brincar, esse tem sido um dos nossos principais objetivos.
Nessa trajetória, encontramos bons parceiros como a Eco Cultural e a Cooperativa crescer, que nos deram ótimas dicas e nos forneceram materiais e esclarecimentos sobre a questão ambiental.
Foi com eles que ouvimos pela primeira vez o termo “resíduos sólidos”. Foi com eles que aprendemos que existem vários encaminhamentos possíveis para os tais resíduos sólidos.
Hoje, sabemos que apesar de tantos discursos e campanhas sobre sustentabilidade e conservação do meio ambiente, ainda há muito a ser feito.
Sabemos que o descarte correto de materiais envolve a formação e o fortalecimento de uma consciência crítica da sociedade sobre a problemática ambiental.
E são diversas as ações, frentes e estratégias para tal. A quem defenda a total substituição de materiais considerados geradores de poluição ambiental por outros que tenham uma vida útil maior ou que sejam mais inertes, como no caso do abandono da produção de embalagens plásticas e substituição por frascos de vidro. A quem veja na reciclagem a solução para o uso e produção de materiais. E entre grupos que usam a questão da sustentabilidade apenas como artifício de marketing e os que realmente se importam com o ambiente, há uma infinidade de iniciativas que sugerem ações e atitudes.
Nós gostamos de pensar que a união entre os que recusam, os que reciclam, os que reutilizam, os que reduzem, os que reaproveitam e os que refletem é o melhor caminho, em meio a tantos interesses pessoais e preocupações reais com o meio ambiente.
Isso porque, talvez a questão ambiental não seja uma questão de resposta única. Porque não é possível jogar toda essa situação, em que tanta coisa parece estar fora do lugar, no lixo de uma vez e substituir por uma nova realidade onde tudo esteja limpo. Mas é possível arrumar aos poucos. E se tiver bastante gente ajudando é mais fácil e mais rápido.
 Nós, do Muriquinhos, adotamos o “R” do resgate. Chamamos nossos materiais de resgatados. E esse tem sido nosso modo de participar da sustentabilidade, integrando consumo consciente, reaproveitamento de materiais, revalorização do brincar e transformação de posturas. Resgatando materiais, aumentamos sua vida útil e ressignificamos sua utilidade.
O brincar tem sido nosso caminho para devolver a vida aos materiais e de exercitar a cidadania, buscando uma compreensão do que é possível fazer com a realidade que temos, dentro de um aspecto, ecológico, econômico, social e cultural.
O Muriquinhos aposta na transformação. Uma transformação que começa em uma ideia. Uma ideia que nasce do desejo e que leva a uma busca por possibilidades materiais. Um movimento que envolve a organização do espaço e do tempo e que necessita de vontade e criatividade. Um movimento que transforme a forma como as pessoas olham para os materiais. Uma transformação que torne possível a integração dos resíduos sólidos ao meio ambiente.
Podemos pensar em quatro etapas necessárias para a mudança de atitude e comportamento: a ideia, a busca, a execução e a utilização (que no nosso caso é o brincar). Etapas que podem ter sua ordem invertida e seu ciclo multiplicado.
Etapas possíveis aos seres humanos desde a infância. Nas brincadeiras de crianças, facilmente observamos esse movimento. Quando disponibilizamos materiais, que a priori teriam outra utilidade diferente do brincar, rapidamente as crianças mostram que já sabem o que fazer, a brincadeira que desejam e como aqueles materiais podem ter infinitas outras utilidades. As crianças, normalmente, já vem com o que chamamos de “olhar do avesso”. Já são capazes de enxergar mil e uma possibilidades onde o adulto estipulou apenas uma. Mas adultos que ainda brincam também podem olhar do avesso e ajudar a ampliar o repertório de vivências e pesquisas do brincar.
E esse olhar do avesso das crianças pode ser o segredo para a transformação do olhar do adulto. É preciso tempo para olhar e para tomarmos consciência do que precisamos e do que podemos transformar. É preciso ouvir e analisar a opinião de pessoas mais experientes, mesmo que os mais experientes sejam as crianças. É preciso sacudir a poeira do corpo e afastar o comodismo do conforto momentâneo. É preciso resgatar valores da vida. É preciso um diálogo com a natureza.
E o primeiro passo pode parecer difícil e custoso, mas não é. Talvez seja simples como deitar no galho de uma árvore e observar como é que o mundo anda e imaginar como é que gostaríamos que ele andasse.
... e depois, pegar a primeira tampinha que você achar jogada no chão.



O mais importante não é como transformamos os materiais, mas sim como, quando manipulamos, cuidamos, resgatamos, construímos e brincamos com os materiais, nós mesmos nos transformamos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Texto apropriado, reflexão compartilhada

Bom, em geral, gosto de escrever os textos aqui do blog. E nós do grupo estamos devendo atualizações há um bom tempo... o que nos daria a obrigação de preparar uma postagem bem autoral. Mas este texto que coloco a seguir vale muito a pena ser compartilhado. Ele não fala do brincar, mas diz muito sobre o que nos leva a ser muriquinhos...
O link do texto original é http://ccemx.org/archivovivo/archives/artwork/redelabs/apropriacao-critica-industrializacao-e-distanciamento


Apropriação crítica, industrialização e distanciamento.
Felipe Fonseca 2011 - Centro Cultural da Espanha - SP
"As últimas centenas de anos presenciaram profundas mudanças na maneira como produzimos coisas. Até meados do século XIX, os bens eram manufaturados por artesãos. Roupas, móveis, utensílios domésticos, objetos decorativos, medicamentos, armas, ferramentas, instrumentos científicos – praticamente tudo era feito à mão, e quase sempre vendido localmente. Sucessivas inovações na fabricação de objetos, transformações nas formas como as sociedades se organizavam, a criação de novos meios de transporte e o acesso a imensas fontes de matérias-primas e outros recursos naturais nas colônias alavancaram a chamada revolução industrial, a partir da Europa e em direção ao resto do mundo.
Através da mecanização e da produção em série, a produtividade aumentou exponencialmente. Bens que anteriormente só estavam disponíveis às elites puderam ser oferecidos a todos, passando a ser considerados necessidades básicas. A qualidade de vida de uma considerável parcela da população aumentou, em um ritmo sem precedentes.
Isso tudo potencializou outras transformações. Ganhou espaço crescente a democracia representativa (“o pior sistema político, com exceção de todos os outros que foram tentados”, segundo Churchill). Formaram-se as cidades contemporâneas, ambiente propício para a atividade industrial: uma maior concentração urbana oferece mão de obra a custo baixo e mercados dinâmicos para escoar a produção. A sociedade tornou-se mais complexa, suas relações mediadas por grandes organizações e instituições. Uma entre as muitas consequências dessas mudanças foi o gradual distanciamento entre produtores e consumidores. E é importante analisar essa divisão.
Antes da produção industrial, a fabricação era um processo manual e consciente. O artesão dominava praticamente todas as etapas do tratamento e transformação de matérias-primas em produtos. O conhecimento sobre o processo fabril tinha muito valor, e era transmitido de geração em geração. Existia a possibilidade do contato pessoal entre quem fabricava alguma coisa e aqueles que a utilizavam. Por mais que o artesão pudesse contestar interferências em seu trabalho e negar-se a atender a pedidos, algum diálogo era sempre possível. Por outro lado, ele também precisava saber usar aquilo que fabricava. Ou seja, deveria ser ele mesmo o mais exigente de seus usuários. Com o passar dos anos, o artesão aplicado tornava-se mestre em seu ofício, formando novas gerações e incrementando o domínio técnico daquela área do conhecimento como um todo.
O desenvolvimento da produção industrial teve fortes implicações nesse contexto, à medida em que afastou a produção do consumo, ao ponto da desconexão total. Criaram-se mundos totalmente separados. De um lado ficaram os operários na indústria, os braços responsáveis pela fabricação dos produtos. São até hoje pessoas que em sua maioria conhecem apenas uma ínfima parte do processo de fabricação. Muitas vezes elas não utilizam os produtos que fabricam, e frequentemente nem saberiam como fazê-lo. Repetidamente juntam uma peça com a outra, apertam parafusos, empilham, verificam o resultado e tornam a repetir o processo, como o personagem de Chaplin em “Tempos Modernos”. Por não terem uma visão geral do processo, essas pessoas necessitam de chefes que as orientem, disciplinem e controlem. Já esses chefes tornam-se por sua vez mais uma classe à parte, os gerentes. Responsáveis pela domesticação da força de trabalho, são em geral conservadores, bajuladores da elite e avessos a mudanças.
Já na outra ponta da industrialização – o “mercado consumidor” – cada indivíduo passou a ser visto muito mais como um comprador em potencial do que como sujeito social. Em vez do contato pessoal com os produtores, resignou-se à impessoalidade do marketing e dos setores de atendimento ao consumidor das grandes empresas. Não sabe mais quem foram as pessoas que produziram aquilo que compra, e é levado a nem se interessar por isso.
Nesse cenário, alguma coisa humana se perdeu. É tristemente real a anedota da criança que, perguntada sobre de onde vem o leite, responde que vem “da caixinha”. Mais triste ainda é perceber quão mais inconscientes ainda somos quando adultos. Essa ignorância se estende para praticamente todos os produtos industrializados. É raro o momento em que paramos para pensar como, onde e por quem são feitas as coisas que nos cercam, de onde vieram as matérias-primas que deram origem a essas coisas, ou mesmo se determinado produto funcionaria melhor se fosse feito de outra forma. Existe a ilusão de que tudo é feito por máquinas, de que o elemento humano não existe mais. E isso está longe de ser verdade: todo produto tem em sua origem recursos naturais. Todo produto requer um esforço criativo inicial seguido por sucessivas fases de trabalho manual, frequentemente realizado sob condições precárias. Não percebemos, mas estamos sempre usando ou carregando objetos – roupas, aparelhos, móveis, tudo – que embutem pedaços do planeta, idéias e suor.
Obsolescência programada
O andar da história amplificou ainda mais a tendência industrial ao distanciamento e à frieza na relação entre fabricação e uso. A era dos mercados de massa, impulsionada por novos meios de transporte e comunicação, alcançaria níveis sem precedentes de afastamento e distorção. Como retratado no recente documentário produzido pela TV espanhola “Comprar, tirar, comprar” (“Comprar, jogar fora, comprar”), em meados do século XX representantes de grandes corporações industriais se reuniram secretamente para estabelecer que seus produtos deveriam durar menos tempo. Ou seja, frente à necessidade visceral das corporações continuarem crescendo ano após ano, seus dirigentes simplesmente decidiram a portas fechadas que os consumidores teriam acesso a produtos menos duráveis, que precisariam ser substituídos em prazos menores! O documentário dá um exemplo emblemático: uma estação de bombeiros norte-americana onde se encontra uma lâmpada incandescente, que recentemente completou cem anos de idade, e ainda está em funcionamento. Nos dias de hoje, as lâmpadas são deliberadamente fabricadas para durar um número limitado de horas de uso. Ou seja, nenhuma lâmpada fabricada hoje vai durar cem anos. E isso não é coincidência: é “planejamento estratégico”, no jargão corporativo.
O mesmo acontece com impressoras, meias-calças, automóveis, eletrodomésticos e muitos outros produtos. Essa é uma tendência intencional, chamada de obsolescência programada. Segundo essa perspectiva, qualquer produto só vale alguma coisa para o fabricante até o instante em que é vendido. A partir do momento que está em posse do consumidor, quanto antes for descartado melhor. Em outras palavras, qualquer produto vendido já é considerado lixo. Essa visão se perpetua nos dois lados do processo produtivo: tanto através dos gerentes que se sobrepõem à mão de obra industrial, condicionando seu trabalho à continuada necessidade de aumentar o faturamento e a lucratividade, produzindo coisas que duram menos tempo; quanto nos departamentos de marketing, que se esforçam em condicionar o comportamento dos consumidores para que continuem comprando produtos novos, mesmo que não precisem deles. Existem setores da administração de empresas especializados em simular relacionamentos prolongados com seus clientes, que são vistos não mais como compradores de produtos (e menos ainda como pessoas), mas sim fontes de faturamento para toda a vida.
É importante perceber o peso desses mediadores. Um engenheiro competente e bem intencionado que queira desenhar um produto mais durável ou que permita o reuso será provavelmente demovido por seus colegas e chefia. Se insistir, a empresa pode até considerá-lo uma espécie de traidor, por conta de uma alegada necessidade de competir pelo desenvolvimento de produtos que durem menos e proporcionem maior lucro, a fim de “não perder espaço para a concorrência”.
E o mais assustador é que nesses ambientes isso é tratado quase como uma verdade universal. As escolas de negócios fazem uma lavagem cerebral, repetindo frases feitas com o objetivo de desumanizar ainda mais a produção e comercialização de bens e serviços. Outro elemento importante a perceber: as empresas em geral se utilizam de linguagem bélica para descrever suas atividades: “público-alvo”, “derrotar os oponentes”, “conquistar”, “dominar”. Não é por acaso. Guerra e comércio estão conectados há muito tempo. A produção industrial, e com ela o poder corporativo, está ligada profundamente à manutenção das estruturas de poder na sociedade. O premiado documentário britânico “Máquinas de Felicidade”(The Century of the Self) mostra como técnicas oriundas da psicologia foram utilizadas desde o começo do século XX para forjar uma sociedade individualista e politicamente frágil, lançando mão do hábito do consumo como indulgência acessível a todos. Isso vai muito além da produção e do comércio, infantiliza a população, e tem reflexos profundos na relação das pessoas com as tecnologias que adquirem.
A quem pertencem os objetos?
Quando pagamos por um produto, acreditamos poder fazer o que quisermos com ele. Isso deveria incluir todos os usos previstos pelo fabricante, além de todos os outros usos que quiséssemos propor. Nas condições atuais, pode não ser bem assim. Particularmente em relação a eletrônicos, existe uma série de restrições legais sobre como podemos utilizá-los. São cada vez mais frequentes os casos de fabricantes que penalizam os usuários que promovem o desvio de funções de seus aparelhos. Um exemplo: a Sony ameaçou judicialmente entusiastas por desenvolverem software que habilitava o robô Aibo a dançar.
Em outras palavras: a empresa proibiu usuários – que, diga-se de passagem, pagaram caro pelos equipamentos que compraram – de fazerem usos que ela própria não consegue oferecer. Por mera compulsão de controle, ela interfere em um aspecto fundamental para a promoção da inovação e seu potencial de transformação social: a chamada indeterminação do objeto técnico, ideia bem desenvolvida pelo francês Gilbert de Simondon (cujos textos vêm sendo traduzidos ao português e disponibilizados na internet por Thiago Novaes .
Esse vício de controle não se limita ao software. Existem também crescentes restrições ao armazenamento e circulação de conteúdo. Por exemplo, se você comprar um CD de música e fizer uma cópia de segurança para manter as músicas caso o CD se extravie ou seja furtado, estará incorrendo em crime. Mesmo que não tenha a intenção de distribuir para outras pessoas, a indústria fonográfica impõe uma legislação que trata a todos como criminosos. A Fundação do Software Livre mantém uma campanha chamada “Deliberadamente defeituosos”, através da qual critica os aparelhos eletrônicos que adotam sistemas de gerenciamento de direitos autorais. Afirma que esses equipamentos já são projetados de maneira a retirar liberdades de seus usuários, o que tem consequências negativas para o conhecimento humano em geral.
O autor de literatura ciberpunk William Gibson diz que “a rua encontra seus próprios usos para as coisas”. Isso é uma característica de todo e qualquer objeto, ainda mais presente em se tratando de ferramentas com múltiplos usos potenciais como computadores, roteadores, telefones, tablets e afins. Com um pouco de habilidade técnica, uma boa pesquisa na internet e muita vontade, um monitor LCD pode virar um projetor, uma impressora matricial se transformar em instrumento de música, uma webcam servir de base para um microscópio digital, um celular ser usado como leitor de código de barras. Nesse sentido, restrições à liberdade de uso tendem a frear o impulso criativo. Grupos de pessoas motivadas e com liberdade de experimentar são uma das bases da inovação. Se não fossem os amadores promovendo o desvio de função dos kits de eletrônica nos anos setenta, talvez o computador pessoal nunca tivesse sido inventado. Precisamos garantir que essa liberdade continue existindo.
Apropriação crítica e bricotecnologia
Ao longo do tempo e dos diversos projetos desenvolvidos pela rede MetaReciclagem, trabalhamos sempre entre dois extremos: de um lado a adoção rápida de novas tecnologias e das novas possibilidades que elas trazem, do outro a crítica ao consumismo superficial. A busca do equilíbrio parece estar no que costumamos chamar de apropriação crítica das tecnologias. Ela toma forma na aproximação entre produção e uso de conhecimento aplicado que tem emergido internacionalmente. O software livre é um exemplo, estimulando ciclos econômicos que em vez de operarem em função da escassez optam pela abundância e pela generosidade. A chamada cena maker é um exemplo ainda mais concreto: pessoas no mundo inteiro fazendo uso de conhecimento compartilhado em rede para criar objetos e dispositivos interconectados. Disso saem ideias para aparelhos que realizam praticamente qualquer coisa: estações de monitoramento ambiental, objetos fabricados em impressoras 3D, protótipos de aparelhos focados nas necessidades de pequenos grupos de pessoas. Eu tenho chamado isso de bricotecnologia – a revalorização do saber-fazer, aplicado às tecnologias de informação e operando em rede.
A apropriação crítica passa pela valorização da inovação cotidiana, representada pela prática popular da gambiarra. Símbolo do impulso criativo orientado à solução de problemas concretos mesmo sem acesso ao conhecimento, ferramentas ou materiais adequados, a gambiarra torna-se ainda mais importante em uma época de crise econômica global, iminente colapso ambiental e consumismo exacerbado. Baseia-se na manipulação (entendida como o ato pegar com as mãos e interferir nos objetos) e na experimentação (sequência de tentativas, erros e novas tentativas). Dá origem a uma criatividade desobediente, que não se assusta com a precariedade e sempre vê o mundo como lotado de potencialidades – uma verdadeira lição que as culturas populares brasileiras têm a dar em tempos de crise econômica, colapso ambiental e disparidade social.
Quando em contato com as inúmeras possibilidades das tecnologias de comunicação em rede, em especial aquelas ligadas ao software livre, temos um potencial de transformação gigantesco. Indivíduos que tenham a gambiarra como habilidade essencial, e se utilizem do conhecimento aberto disponível em rede para adquirir ideias e técnicas, podem ser vistos como inventores em potencial de novos arranjos criativos, espalhados por todas as classes sociais e localidades.
A apropriação crítica supõe o amadorismo – que vem do latim amare, referindo-se às pessoas que se dedicam a um ofício mais por paixão do que por necessidade objetiva. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, os amadores estão em geral mais abertos à inovação. Justamente por não terem o domínio completo da técnica estabelecida e por não ocuparem posição nas hierarquias profissionais, têm mais espaço para o desvio e a transformação. Têm a possibilidade de questionar certezas e imposições, e com isso descobrir melhores maneiras de fazer as coisas.
Outro traço característico das culturas populares que faz muito sentido para a apropriação crítica de tecnologias de comunicação é o mutirão – agrupamento dinâmico que se forma para cumprir tarefas coletivas e em seguida se desfaz. O mutirão possibilita a efetiva cooperação entre pessoas e grupos, aumentando sua capacidade individual e promovendo uma sociabilidade livre e produtiva. As redes sociais online dialogam muito bem com a lógica do mutirão, promovendo laços de contato entre pessoas que não têm um convívio cotidiano. É natural que a abertura a novos contatos estimule a criatividade, de modo que estimular iniciativas dinâmicas em rede é mais uma forma de potencializá-la.
A bricotecnologia e a apropriação crítica sugerem a reconciliação entre manufatura e necessidades cotidianas, libertando a fabricação da exigência de escala. Gabriel Menotti propôs, no artigo “Gambiarra: The Prototyping Perspective (artigo cuja tradução para português deve sair na compilação sobre “Gambiologia” do MutGamb, uma edição que ironicamente está há dois anos aguardando finalização), a análise do contraste entre a gambiarra e o protótipo. Se esta indica uma fase prévia à fabricação propriamente dita, aquela dissolve a fronteira entre esses dois estados e se coloca como solução intermediária: servindo ao uso ao mesmo tempo em que se mantém aberta para reinvenção. Uma vez que as ferramentas e materiais necessários para fabricar objetos estão se tornando cada vez mais acessíveis, é importante desenvolver as habilidades técnicas e a criatividade que podem fazer uso desses recursos, e assegurar que apontem a ciclos de inovação baseados em conhecimento livre. A apropriação crítica, a bricolagem, a gambiarra e o mutirão são elementos fundamentais dessa equação."

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Baú de Possibilidades




Um livro bom, de graça e sobre o brincar... vai me dizer que você não quer?


Se ainda não te convenci, lá vai a frase que começa o livro:


"... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós." Manoel de Barros


Se agora já bateu pelo menos uma pontinha de curiosidade, baixe o livro neste site.
Eu já peguei o meu exemplar virtual e li alguns trechos.
O capítulo que li na íntegra, Arte e Experiência, foi escrito por Sirlene Giannotti. Um relato sobre a experiência de três crianças com o processo de criação na arte cerâmica. É ler e viver um pouquinho com as três crianças. É ler e descobrir "como fizeram para juntar o seu coração?"









segunda-feira, 27 de abril de 2009

Muriquinho da Bahia

Vasculhando meu baú onde guardo as lembranças dos caminhos por onde o Muriquinhos já passou, achei esse texto de um amigo da Andréa, que é lá de Salvador. Não, o Muriquinhos ainda não foi até Salvador, pelo menos não em carne e osso. Mas já foi de brincadeira...
O caso é que a Andréa contou como era o projeto, e o Breno fez sua leitura e a colocou neste texto.
Nem pedi permissão para publicar o texto aqui (no ano passado ele foi colocado lá na nossa comunidade no orkut), mas acho que ele vai gostar...

Olhar enigmático de criança baiana, Patrizia Giacontti, 2008 - www.patriziagiancotti.com/


"Muriquinho, que no seu significado puro traz consigo apenas uma pequena criança...Criança esta que dentro da cantiga popular, donde fostes tirada tal expressão, já quebra com seu nicho social...A quebra não se faz através de uma política que o pequeno muriquinho tenha, não...Todavia ele já possui sua política humana, não porque ele tenha como referência o sociólogo francês Saint-Simon quando diz que: "o ser humano é um ser de conhecimento", não... mas sim porque ele constrói tal pensamento social enquanto sociedade, enquanto ser de saber... que de uma forma instintiva sabe que uma sociedade não é um aglomerado de pessoas... sabe que tudo é uma grande máquina, e mesmo uma peça muriquinho, peça esta faz parte da engrenagem...Mas muriquinho precisa brincar, brincar de ser, brincar de saber, brincar de aprender e nesta brincadeira se reconhecer.Mas porque teríamos que tornar séria uma brincadeira? Não estaríamos nós descaracterizando muriquinho enquanto criança pequena que tem como função brincar? Não, descaracterizamos quando não deixamos que ela brinque, brinca muriquinho, brinca! Brinca e nos mostra o quão séria é tua brincadeira e o quão infantil é a nossa seriedade... incandesce sua criança e desta forma nos obriga a concordar com Nietzsche, quando ele diz:"A ultima fase do homem é a mais pura, és quando faz-se criança, pois só criança és sincera, só criança és verdade, pois não foi contaminada pela cólera da seriedade humana."Brinca muriquinho, brinca! Ensina-nos como devemos brincar neste jogo da vida que apenas sabemos perder ou ganhar e nos esquecemos de brincar, brinca muriquinho, brinca!Pois seus amigos de Dumbá, não mais chorarão, pois sempre haverá homens sensatos dispostos a aprender a brincar, brinca." (Texto de Breno Pires)
Ah! O Breno tem um blog também: http://wwwmitcha.blogspot.com/