Para quem está brincando de rastrear os muriquinhos, lá vai o cartaz de mais um de nossos encontros:
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Vivekinha e Muriquinhos
A Vivekinha foi o primeiro lugar onde tive aula de arte com crianças. Não, não escrevi errado. Eu era a professora, mas quem mais ensinava eram as crianças. Não sei bem ao certo quando foi que elas tomaram posse do espaço e começaram a comandar. Eram crianças de 4 (às vezes 3, ou quase 2) até 12 anos. Nós nos reuníamos aos sábados de manhã. Eram preciosas 3 horas, que passávamos mergulhados num ambiente de criação e convivência artística. Ai de mim se eu, por algum motivo tivesse que faltar. Com certeza seria motivo de reclamação e protesto nas "reuniões de grupo" que serviam para cada um do grupo dar sua opinião sobre como as coisas andavam. Tinha dia que era para apresentar novas ideias de trabalhos, tinha dia que era para discutir a organização da hora do lanche, e muitas e muitas vezes era para dar bronca em alguém que estava se comportando mal. Esses meus professores mirins eram muito exigentes. Eles defendiam a Vivekinha com unhas e dentes.
Foi muito triste quando tive que deixar a Vivekinha. Sinto saudades até hoje. As crianças daquela época já estão grandes. Algumas já têm suas crianças. Algumas já estão na faculdade ou saíram dela.
A Vivekinha continua existindo. Mudou de endereço algumas vezes. Ganhou outros professores/alunos. Mas ela ainda mora aqui no meu coração. Fica em uma rua bem do lado do Muriquinhos, que aliás, deve ser seu parente.
E por que não juntar Vivekinha e Muriquinhos em uma oficina? Quem sabe essa não seja a primeira de muitas oficinas dessa dupla...
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Rastreando os Muriquinhos...
Numa casa no caminho tem um pé de brincadeira... Esta casa é o LILA,
lugar de brincar e experimentar ser. Ela
fica no bairro da Aclimação em São Paulo e foi lá que os muriquinhos estiveram
no último dia 14 de setembro para sua inauguração, numa bela parceria com a
Patricia Passoni, idealizadora do espaço.
Num Clima de Brincadeira realizamos um encontro de formação de
professores e pessoas interessadas. Selecionamos
da nossa bagagem brincante algumas coleções de brinquedos que giram, devido ao
encantamento e fizemos uma pequena exposição. Em seguida houve uma reflexão sobre as
lembranças e os valores das brincadeiras da infância dos adultos e uma
apresentação de experiências vividas por pessoas do grupo, tendo como inspiração
algumas obras de artistas plásticos contemporâneos.
Alguns brinquedos foram
construídos durante o encontro e outros sugeridos num livreto, entregue para os
participantes, com dicas práticas e instruções para construção.
Ao final da tarde, compartilhamos
um delicioso lanche oferecido pela Patricia e sua equipe.
Nesta casa no caminho, neste pé de brincadeira, ainda deixaremos muitos
de nossos brinquedos!
Venha conhecer o LILA e participe do nosso próximo
encontro no último sábado de outubro.
Por Rosana Roza
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
O que será?
Só para aguçar a a curiosidade de quem vai fazer o curso no dia 14 de setembro:
Clima de Brincadeira - Brinquedos que giram.
Mais informações: clique aqui.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Clima de Brincadeira - Brinquedos que giram
Faz um tempo que os ventos andam levando o Muriquinhos rumo aos cursos para professores. A gente ainda continua brincando muito com crianças, mas conversar com professores tem sido uma boa maneira de ampliar a brincadeira.
Neste ano apareceram várias propostas de parceria que giram nesse sentido. Uma delas é com um novíssimo espaço na Aclimação o "LILA - Brincar e Amar", que fica na Rua Safira, 276.
Segundo a Patrícia Passoni, idealizadora do espaço o LILA é "uma casa no caminho. Um lugar para brincar e experimentar ser."
Nós vamos ajudar a inaugurar o espaço, com a primeira de uma série de encontros de educadores: Clima de Brincadeira - Brinquedos que Giram.
Vai ser no dia 14 de setembro, sábado, das 14:30 às 17:30, com lanchinho especial no final da oficina.
As vagas são limitadas e o valor é de R$ 120,00.
O material está incluso e cada participante pode levar os brinquedos que construir.
Reserve sua vaga com a Pati pelo telefone 97699-4480 ou pelo email patipassoni@yahoo.com.br
Venha sentir esse ventinho Muriquinho e entrar no Clima de Brincadeira!!
terça-feira, 27 de agosto de 2013
As dobras de 2013
Já que estou animada com o blog esta semana, vou aproveitar para começar a colocar as andanças de 2013 em dia. Vai ser uma espécie de viagem pelo túnel do tempo... voltando para o mês de março deste ano: estivemos em quatro unidades do Fábrica de Cultura (Jardim São Luiz, Vila Nova Cachoeirinha, Jaçanã e Capão Redondo).
A proposta das oficinas, que aconteceram nas bibliotecas do Fábrica, era de fantoches de dobradura. As instruções para fazer a base do fantoche eram bem simples e a atividade permitia que cada um soltasse sua imaginação... e foi o que fizeram!!!
No final, teve grupo querendo até fazer uma pequena apresentação com seus fantoches.
Obs.: Logo logo eu preparo um passo a passo para essa atividade... Não percam!!!
No final, teve grupo querendo até fazer uma pequena apresentação com seus fantoches.
Obs.: Logo logo eu preparo um passo a passo para essa atividade... Não percam!!!
sábado, 24 de agosto de 2013
O blog e o Dr. PET
Quando começamos o blog no dia 5 de março de 2009, começamos brincando e sem entender muito bem como é que essa ferramenta funcionava. Muitas pessoas perguntavam se o grupo não tinha site ou algo parecido. Dai, juntamos a fome com a vontade de comer. Procuramos um jeito viável financeiramente para ter um espaço muriquinho na internet e optamos pelo blogspot.
Começamos com um pique bom, escrevendo muitas postagens. Mas, foi difícil manter a frequência com o ritmo acelerado de trabalho no mundo real.
Mesmo assim, com postagens bem espaçadas, o blog ainda é muito visitado. E são as visitas que o mantém vivo. São elas que nos dão energia para continuar escrevendo. Principalmente, quando a visita deixa um comentário ou entra em contato conosco.
É através dos comentários e do email que chegam notícias muito boas de gente que tem espírito de muriquinho e que está do outro lado da telinha.
Na semana passada, recebemos um desses emails cheios de energia positiva. Era da Erica Nestori, contando sobre como ela aproveitou o passo-a-passo do boneco de tampinhas, que saiu na revista Na Mochila, em um belo projeto de Educação Humanitária com foco no bem-estar dos animais de estimação.
O projeto chama-se Dr. PET. Foi publicado na Revista do Professor e realizado no Colégio César Lattes de Mogi Guaçu, com crianças de 7 a 10 anos.
Nas fotos que a Erica nos mandou, dá pra ver o cuidado e envolvimento dela e das crianças:
| Material bem organizado e separado: é o que chamamos de tesouro! |
| Linha de montagem: todo mundo bem concentrado no trabalho. |
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| Cada um montando o seu boneco: exercitando a coordenação motora. |
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| Na escolha das tampas, a combinação pessoal de cores. |
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| Mais linha de montagem com uma bancada bem organizada. |
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| Os bonecos prontos: uma grande produção! |
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| Orgulho e felicidade. |
| Multidão do bem: de bonecos e seus donos. |
Para conhecer mais sobre o projeto clique aqui.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Estrela
Entre os Muriquinhos tem uma especialista em tramas de barbante (e vários curiosos). A Rosana Roza conta histórias cheias de encanto e truques que deixam qualquer um intrigado. Começa pelo fato dela usar apenas um simples pedaço de barbante e sua imaginação. Tem a história da avó dela que não gosta de fazer crochê nem tricô (onde já se viu... uma avó que prefere brincar...até parece uma avó muriquinha...). Tem a história da casa, aquela que é engraçada. Tem a história do duende e o rei. E tem várias outras histórias.
No final de cada história todo mundo quer aprender a fazer uma das tramas. Algumas tramas parecem um truque de mágica. Outras formam desenhos bem legais.
A minha preferida é a estrela, que eu vou tentar ensinar aqui.
Você vai precisar de um pedaço de barbante com mais ou menos 1 metro e meio e com as duas pontas unidas num nó. Depois siga as instruções e as imagens:
1- Coloque o barbante no pescoço;
2- Estique o barbante prendendo os polegares;
3- Sem soltar o polegar, enganche o fio esquerdo com o indicador direito;
4- Volte a mão direita para a posição inicial;
5- Sem soltar o polegar, enganche o fio direito com o indicador esquerdo;
6- Volte a mão esquerda para a posição inicial e abra bem o espaço entre os indicadores e polegares de cada mão. (sem soltar os fios).
Dica: as palmas das mãos tem que ficar sempre voltadas para sua barriga.
Tente fazer e saia por ai com sua estrela no peito.
Ah! E se você ficou com vontade de conhecer as histórias da Rosana, acompanhem o blog para saber quando e onde vai ser a próxima contação.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Texto apropriado, reflexão compartilhada
Bom, em geral, gosto de escrever os textos aqui do blog. E nós do grupo estamos devendo atualizações há um bom tempo... o que nos daria a obrigação de preparar uma postagem bem autoral. Mas este texto que coloco a seguir vale muito a pena ser compartilhado. Ele não fala do brincar, mas diz muito sobre o que nos leva a ser muriquinhos...
O link do texto original é http://ccemx.org/archivovivo/archives/artwork/redelabs/apropriacao-critica-industrializacao-e-distanciamento
O link do texto original é http://ccemx.org/archivovivo/archives/artwork/redelabs/apropriacao-critica-industrializacao-e-distanciamento
Apropriação crítica, industrialização e distanciamento.
Felipe Fonseca 2011 - Centro Cultural da Espanha - SP
"As últimas centenas de anos presenciaram profundas mudanças na maneira como produzimos coisas. Até meados do século XIX, os bens eram manufaturados por artesãos. Roupas, móveis, utensílios domésticos, objetos decorativos, medicamentos, armas, ferramentas, instrumentos científicos – praticamente tudo era feito à mão, e quase sempre vendido localmente. Sucessivas inovações na fabricação de objetos, transformações nas formas como as sociedades se organizavam, a criação de novos meios de transporte e o acesso a imensas fontes de matérias-primas e outros recursos naturais nas colônias alavancaram a chamada revolução industrial, a partir da Europa e em direção ao resto do mundo.
Através da mecanização e da produção em série, a produtividade aumentou exponencialmente. Bens que anteriormente só estavam disponíveis às elites puderam ser oferecidos a todos, passando a ser considerados necessidades básicas. A qualidade de vida de uma considerável parcela da população aumentou, em um ritmo sem precedentes.
Isso tudo potencializou outras transformações. Ganhou espaço crescente a democracia representativa (“o pior sistema político, com exceção de todos os outros que foram tentados”, segundo Churchill). Formaram-se as cidades contemporâneas, ambiente propício para a atividade industrial: uma maior concentração urbana oferece mão de obra a custo baixo e mercados dinâmicos para escoar a produção. A sociedade tornou-se mais complexa, suas relações mediadas por grandes organizações e instituições. Uma entre as muitas consequências dessas mudanças foi o gradual distanciamento entre produtores e consumidores. E é importante analisar essa divisão.
Isso tudo potencializou outras transformações. Ganhou espaço crescente a democracia representativa (“o pior sistema político, com exceção de todos os outros que foram tentados”, segundo Churchill). Formaram-se as cidades contemporâneas, ambiente propício para a atividade industrial: uma maior concentração urbana oferece mão de obra a custo baixo e mercados dinâmicos para escoar a produção. A sociedade tornou-se mais complexa, suas relações mediadas por grandes organizações e instituições. Uma entre as muitas consequências dessas mudanças foi o gradual distanciamento entre produtores e consumidores. E é importante analisar essa divisão.
Antes da produção industrial, a fabricação era um processo manual e consciente. O artesão dominava praticamente todas as etapas do tratamento e transformação de matérias-primas em produtos. O conhecimento sobre o processo fabril tinha muito valor, e era transmitido de geração em geração. Existia a possibilidade do contato pessoal entre quem fabricava alguma coisa e aqueles que a utilizavam. Por mais que o artesão pudesse contestar interferências em seu trabalho e negar-se a atender a pedidos, algum diálogo era sempre possível. Por outro lado, ele também precisava saber usar aquilo que fabricava. Ou seja, deveria ser ele mesmo o mais exigente de seus usuários. Com o passar dos anos, o artesão aplicado tornava-se mestre em seu ofício, formando novas gerações e incrementando o domínio técnico daquela área do conhecimento como um todo.
O desenvolvimento da produção industrial teve fortes implicações nesse contexto, à medida em que afastou a produção do consumo, ao ponto da desconexão total. Criaram-se mundos totalmente separados. De um lado ficaram os operários na indústria, os braços responsáveis pela fabricação dos produtos. São até hoje pessoas que em sua maioria conhecem apenas uma ínfima parte do processo de fabricação. Muitas vezes elas não utilizam os produtos que fabricam, e frequentemente nem saberiam como fazê-lo. Repetidamente juntam uma peça com a outra, apertam parafusos, empilham, verificam o resultado e tornam a repetir o processo, como o personagem de Chaplin em “Tempos Modernos”. Por não terem uma visão geral do processo, essas pessoas necessitam de chefes que as orientem, disciplinem e controlem. Já esses chefes tornam-se por sua vez mais uma classe à parte, os gerentes. Responsáveis pela domesticação da força de trabalho, são em geral conservadores, bajuladores da elite e avessos a mudanças.
Já na outra ponta da industrialização – o “mercado consumidor” – cada indivíduo passou a ser visto muito mais como um comprador em potencial do que como sujeito social. Em vez do contato pessoal com os produtores, resignou-se à impessoalidade do marketing e dos setores de atendimento ao consumidor das grandes empresas. Não sabe mais quem foram as pessoas que produziram aquilo que compra, e é levado a nem se interessar por isso.
Nesse cenário, alguma coisa humana se perdeu. É tristemente real a anedota da criança que, perguntada sobre de onde vem o leite, responde que vem “da caixinha”. Mais triste ainda é perceber quão mais inconscientes ainda somos quando adultos. Essa ignorância se estende para praticamente todos os produtos industrializados. É raro o momento em que paramos para pensar como, onde e por quem são feitas as coisas que nos cercam, de onde vieram as matérias-primas que deram origem a essas coisas, ou mesmo se determinado produto funcionaria melhor se fosse feito de outra forma. Existe a ilusão de que tudo é feito por máquinas, de que o elemento humano não existe mais. E isso está longe de ser verdade: todo produto tem em sua origem recursos naturais. Todo produto requer um esforço criativo inicial seguido por sucessivas fases de trabalho manual, frequentemente realizado sob condições precárias. Não percebemos, mas estamos sempre usando ou carregando objetos – roupas, aparelhos, móveis, tudo – que embutem pedaços do planeta, idéias e suor.
Obsolescência programada
O andar da história amplificou ainda mais a tendência industrial ao distanciamento e à frieza na relação entre fabricação e uso. A era dos mercados de massa, impulsionada por novos meios de transporte e comunicação, alcançaria níveis sem precedentes de afastamento e distorção. Como retratado no recente documentário produzido pela TV espanhola “Comprar, tirar, comprar” (“Comprar, jogar fora, comprar”), em meados do século XX representantes de grandes corporações industriais se reuniram secretamente para estabelecer que seus produtos deveriam durar menos tempo. Ou seja, frente à necessidade visceral das corporações continuarem crescendo ano após ano, seus dirigentes simplesmente decidiram a portas fechadas que os consumidores teriam acesso a produtos menos duráveis, que precisariam ser substituídos em prazos menores! O documentário dá um exemplo emblemático: uma estação de bombeiros norte-americana onde se encontra uma lâmpada incandescente, que recentemente completou cem anos de idade, e ainda está em funcionamento. Nos dias de hoje, as lâmpadas são deliberadamente fabricadas para durar um número limitado de horas de uso. Ou seja, nenhuma lâmpada fabricada hoje vai durar cem anos. E isso não é coincidência: é “planejamento estratégico”, no jargão corporativo.
O mesmo acontece com impressoras, meias-calças, automóveis, eletrodomésticos e muitos outros produtos. Essa é uma tendência intencional, chamada de obsolescência programada. Segundo essa perspectiva, qualquer produto só vale alguma coisa para o fabricante até o instante em que é vendido. A partir do momento que está em posse do consumidor, quanto antes for descartado melhor. Em outras palavras, qualquer produto vendido já é considerado lixo. Essa visão se perpetua nos dois lados do processo produtivo: tanto através dos gerentes que se sobrepõem à mão de obra industrial, condicionando seu trabalho à continuada necessidade de aumentar o faturamento e a lucratividade, produzindo coisas que duram menos tempo; quanto nos departamentos de marketing, que se esforçam em condicionar o comportamento dos consumidores para que continuem comprando produtos novos, mesmo que não precisem deles. Existem setores da administração de empresas especializados em simular relacionamentos prolongados com seus clientes, que são vistos não mais como compradores de produtos (e menos ainda como pessoas), mas sim fontes de faturamento para toda a vida.
É importante perceber o peso desses mediadores. Um engenheiro competente e bem intencionado que queira desenhar um produto mais durável ou que permita o reuso será provavelmente demovido por seus colegas e chefia. Se insistir, a empresa pode até considerá-lo uma espécie de traidor, por conta de uma alegada necessidade de competir pelo desenvolvimento de produtos que durem menos e proporcionem maior lucro, a fim de “não perder espaço para a concorrência”.
É importante perceber o peso desses mediadores. Um engenheiro competente e bem intencionado que queira desenhar um produto mais durável ou que permita o reuso será provavelmente demovido por seus colegas e chefia. Se insistir, a empresa pode até considerá-lo uma espécie de traidor, por conta de uma alegada necessidade de competir pelo desenvolvimento de produtos que durem menos e proporcionem maior lucro, a fim de “não perder espaço para a concorrência”.
E o mais assustador é que nesses ambientes isso é tratado quase como uma verdade universal. As escolas de negócios fazem uma lavagem cerebral, repetindo frases feitas com o objetivo de desumanizar ainda mais a produção e comercialização de bens e serviços. Outro elemento importante a perceber: as empresas em geral se utilizam de linguagem bélica para descrever suas atividades: “público-alvo”, “derrotar os oponentes”, “conquistar”, “dominar”. Não é por acaso. Guerra e comércio estão conectados há muito tempo. A produção industrial, e com ela o poder corporativo, está ligada profundamente à manutenção das estruturas de poder na sociedade. O premiado documentário britânico “Máquinas de Felicidade”(The Century of the Self) mostra como técnicas oriundas da psicologia foram utilizadas desde o começo do século XX para forjar uma sociedade individualista e politicamente frágil, lançando mão do hábito do consumo como indulgência acessível a todos. Isso vai muito além da produção e do comércio, infantiliza a população, e tem reflexos profundos na relação das pessoas com as tecnologias que adquirem.
A quem pertencem os objetos?
Quando pagamos por um produto, acreditamos poder fazer o que quisermos com ele. Isso deveria incluir todos os usos previstos pelo fabricante, além de todos os outros usos que quiséssemos propor. Nas condições atuais, pode não ser bem assim. Particularmente em relação a eletrônicos, existe uma série de restrições legais sobre como podemos utilizá-los. São cada vez mais frequentes os casos de fabricantes que penalizam os usuários que promovem o desvio de funções de seus aparelhos. Um exemplo: a Sony ameaçou judicialmente entusiastas por desenvolverem software que habilitava o robô Aibo a dançar.
Em outras palavras: a empresa proibiu usuários – que, diga-se de passagem, pagaram caro pelos equipamentos que compraram – de fazerem usos que ela própria não consegue oferecer. Por mera compulsão de controle, ela interfere em um aspecto fundamental para a promoção da inovação e seu potencial de transformação social: a chamada indeterminação do objeto técnico, ideia bem desenvolvida pelo francês Gilbert de Simondon (cujos textos vêm sendo traduzidos ao português e disponibilizados na internet por Thiago Novaes .
Esse vício de controle não se limita ao software. Existem também crescentes restrições ao armazenamento e circulação de conteúdo. Por exemplo, se você comprar um CD de música e fizer uma cópia de segurança para manter as músicas caso o CD se extravie ou seja furtado, estará incorrendo em crime. Mesmo que não tenha a intenção de distribuir para outras pessoas, a indústria fonográfica impõe uma legislação que trata a todos como criminosos. A Fundação do Software Livre mantém uma campanha chamada “Deliberadamente defeituosos”, através da qual critica os aparelhos eletrônicos que adotam sistemas de gerenciamento de direitos autorais. Afirma que esses equipamentos já são projetados de maneira a retirar liberdades de seus usuários, o que tem consequências negativas para o conhecimento humano em geral.
O autor de literatura ciberpunk William Gibson diz que “a rua encontra seus próprios usos para as coisas”. Isso é uma característica de todo e qualquer objeto, ainda mais presente em se tratando de ferramentas com múltiplos usos potenciais como computadores, roteadores, telefones, tablets e afins. Com um pouco de habilidade técnica, uma boa pesquisa na internet e muita vontade, um monitor LCD pode virar um projetor, uma impressora matricial se transformar em instrumento de música, uma webcam servir de base para um microscópio digital, um celular ser usado como leitor de código de barras. Nesse sentido, restrições à liberdade de uso tendem a frear o impulso criativo. Grupos de pessoas motivadas e com liberdade de experimentar são uma das bases da inovação. Se não fossem os amadores promovendo o desvio de função dos kits de eletrônica nos anos setenta, talvez o computador pessoal nunca tivesse sido inventado. Precisamos garantir que essa liberdade continue existindo.
Apropriação crítica e bricotecnologia
Ao longo do tempo e dos diversos projetos desenvolvidos pela rede MetaReciclagem, trabalhamos sempre entre dois extremos: de um lado a adoção rápida de novas tecnologias e das novas possibilidades que elas trazem, do outro a crítica ao consumismo superficial. A busca do equilíbrio parece estar no que costumamos chamar de apropriação crítica das tecnologias. Ela toma forma na aproximação entre produção e uso de conhecimento aplicado que tem emergido internacionalmente. O software livre é um exemplo, estimulando ciclos econômicos que em vez de operarem em função da escassez optam pela abundância e pela generosidade. A chamada cena maker é um exemplo ainda mais concreto: pessoas no mundo inteiro fazendo uso de conhecimento compartilhado em rede para criar objetos e dispositivos interconectados. Disso saem ideias para aparelhos que realizam praticamente qualquer coisa: estações de monitoramento ambiental, objetos fabricados em impressoras 3D, protótipos de aparelhos focados nas necessidades de pequenos grupos de pessoas. Eu tenho chamado isso de bricotecnologia – a revalorização do saber-fazer, aplicado às tecnologias de informação e operando em rede.
A apropriação crítica passa pela valorização da inovação cotidiana, representada pela prática popular da gambiarra. Símbolo do impulso criativo orientado à solução de problemas concretos mesmo sem acesso ao conhecimento, ferramentas ou materiais adequados, a gambiarra torna-se ainda mais importante em uma época de crise econômica global, iminente colapso ambiental e consumismo exacerbado. Baseia-se na manipulação (entendida como o ato pegar com as mãos e interferir nos objetos) e na experimentação (sequência de tentativas, erros e novas tentativas). Dá origem a uma criatividade desobediente, que não se assusta com a precariedade e sempre vê o mundo como lotado de potencialidades – uma verdadeira lição que as culturas populares brasileiras têm a dar em tempos de crise econômica, colapso ambiental e disparidade social.
Quando em contato com as inúmeras possibilidades das tecnologias de comunicação em rede, em especial aquelas ligadas ao software livre, temos um potencial de transformação gigantesco. Indivíduos que tenham a gambiarra como habilidade essencial, e se utilizem do conhecimento aberto disponível em rede para adquirir ideias e técnicas, podem ser vistos como inventores em potencial de novos arranjos criativos, espalhados por todas as classes sociais e localidades.
A apropriação crítica supõe o amadorismo – que vem do latim amare, referindo-se às pessoas que se dedicam a um ofício mais por paixão do que por necessidade objetiva. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, os amadores estão em geral mais abertos à inovação. Justamente por não terem o domínio completo da técnica estabelecida e por não ocuparem posição nas hierarquias profissionais, têm mais espaço para o desvio e a transformação. Têm a possibilidade de questionar certezas e imposições, e com isso descobrir melhores maneiras de fazer as coisas.
Outro traço característico das culturas populares que faz muito sentido para a apropriação crítica de tecnologias de comunicação é o mutirão – agrupamento dinâmico que se forma para cumprir tarefas coletivas e em seguida se desfaz. O mutirão possibilita a efetiva cooperação entre pessoas e grupos, aumentando sua capacidade individual e promovendo uma sociabilidade livre e produtiva. As redes sociais online dialogam muito bem com a lógica do mutirão, promovendo laços de contato entre pessoas que não têm um convívio cotidiano. É natural que a abertura a novos contatos estimule a criatividade, de modo que estimular iniciativas dinâmicas em rede é mais uma forma de potencializá-la.
A bricotecnologia e a apropriação crítica sugerem a reconciliação entre manufatura e necessidades cotidianas, libertando a fabricação da exigência de escala. Gabriel Menotti propôs, no artigo “Gambiarra: The Prototyping Perspective” (artigo cuja tradução para português deve sair na compilação sobre “Gambiologia” do MutGamb, uma edição que ironicamente está há dois anos aguardando finalização), a análise do contraste entre a gambiarra e o protótipo. Se esta indica uma fase prévia à fabricação propriamente dita, aquela dissolve a fronteira entre esses dois estados e se coloca como solução intermediária: servindo ao uso ao mesmo tempo em que se mantém aberta para reinvenção. Uma vez que as ferramentas e materiais necessários para fabricar objetos estão se tornando cada vez mais acessíveis, é importante desenvolver as habilidades técnicas e a criatividade que podem fazer uso desses recursos, e assegurar que apontem a ciclos de inovação baseados em conhecimento livre. A apropriação crítica, a bricolagem, a gambiarra e o mutirão são elementos fundamentais dessa equação."
domingo, 27 de janeiro de 2013
E VIVA 2013!
2013 será um ano de muitas ações para o Muriquinhos! Pretendemos ampliar a nossa atuação não só nas oficinas com
crianças, mas na formação de professores, que em 2012 nos fortaleceu e nos
deixou muito satisfeitas com os resultados!
Lá vai um pouquinho de JOSÉ
SARAMAGO
Uma calma luz...
“... cada um de nós vê o mundo com os
olhos que tem, e os olhos vêem o que
querem, os olhos fazem a diversidade do
mundo e fabricam as maravilhas, ainda
que sejam (elas, as maravilhas) de pedra,
e altas proas, ainda que sejam de ilusão.”
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